Caixa ignorou recomendação de
Conselho contra ‘pedaladas fiscais’
Pagamentos foram intensificados nos meses anteriores à
reeleição
BRASÍLIA — Atas até hoje
sigilosas do Conselho de Administração da Caixa Econômica Federal revelam que a
direção do banco fez pagamentos de programas sociais do governo nos meses que
antecederam a reeleição da presidente Dilma Rousseff em 2014, mesmo tendo
recebido recomendação expressa de que as operações fossem suspensas.
O Conselho de Administração
da Caixa recomendara ao banco que deixasse de pagar benefícios diante da falta
de definição jurídica sobre a legalidade de operações, no centro das acusações
sobre “pedaladas fiscais”, no processo de impeachment. Na época, a União não
repassava toda a verba necessária, e a Caixa era obrigada a usar recurso
próprio para arcar com o pagamento de Bolsa Família e seguro-desemprego.
A recomendação do
conselho, órgão superior à direção da Caixa, está expressa em ata da reunião
dos sete conselheiros em 6 de junho de 2014. Após a diretriz do conselho, o
comando do banco recebeu um parecer jurídico que endossaria a legalidade das
operações. Sem que os conselheiros voltassem a ser consultados, a direção da
Caixa continuou fazendo as operações. A ata da reunião de 6 de junho registra
que os conselheiros consideraram “os riscos envolvidos” na manobra para fazer a
seguinte recomendação: “Que a Caixa se abstenha de utilizar a previsão contratual
sob análise jurídica”, diz trecho do documento obtido pelo GLOBO.
AUDITORIA DETECTOU
RISCOS
Os riscos foram detectados
numa auditoria interna da Caixa, referente a atividades em 2013, discutida na
reunião do conselho. A auditoria fez um detalhamento sobre represamentos de
repasses de verbas dos ministérios ao banco, que se viu obrigado a arcar com o
pagamento dos programas e benefícios do governo, o cerne das “pedaladas
fiscais”.
A “previsão contratual”
citada na recomendação diz respeito a uma cláusula do contrato assinado entre a
Caixa e o Ministério do Trabalho para o pagamento de seguro-desemprego e abono
salarial. A cláusula permitia que o banco pagasse os benefícios enquanto a
União não regularizasse os repasses. A legalidade desta cláusula ainda
dependeria de análise jurídica. Enquanto isso, o Conselho de Administração
recomendava que as operações fossem suspensas.
Em resposta ao GLOBO, a
Caixa sustentou que a análise jurídica foi finalizada “dias depois” da reunião
do conselho, mais especificamente em 24 de junho de 2014. O parecer concluiu
pela legalidade da cláusula contratual. O novo documento, porém, só foi
submetido ao Conselho de Administração em 25 de setembro, como consta em ata da
reunião, cujos trechos foram obtidos pelo jornal. Nesse intervalo de quase
quatro meses, a recomendação dos conselheiros para que se interrompessem as
“pedaladas” deixou de ser seguida. Dilma foi reeleita em 26 de outubro.
As “pedaladas” com
seguro-desemprego, abono salarial e Bolsa Família ocorreram intensamente em
junho, julho, agosto e setembro. Os saldos negativos nas contas de suprimento
dos programas no banco foram registrados na maioria dos dias no período,
conforme relatório final do Tribunal de Contas da União (TCU) que embasou
parecer pela rejeição das contas de 2014 de Dilma. A recorrência de saldos
negativos é uma prova das “pedaladas” e de como a manobra configura operação de
crédito, segundo o TCU.
Indagada sobre o fato de o
parecer jurídico não ter sido submetido ao conselho entre junho e setembro, a
Caixa argumentou ao GLOBO que “optou-se por cautela manter os pagamentos, a fim
de preservar os direitos dos beneficiários dos programas sociais”. A
instituição considerou ainda “a grande relevância” dos programas e a existência
do “posicionamento jurídico favorável”. “A decisão (de manter os pagamentos)
foi referendada por parecer técnico do TCU, no processo de tomada de contas que
analisa o caso”, disse a Caixa.
Os conselheiros também
discutiram os pontos mais importantes do relatório de atividades do Comitê de
Auditoria da Caixa, relacionado ao segundo semestre de 2013. O documento tratou
de uma transferência de R$ 2,4 bilhões da subconta “seguro-desemprego” para a
subconta “valores a receber - programas sociais”. A recomendação foi para que o
assunto fosse analisado pela Diretoria Jurídica, “ante a possibilidade de
caracterização de empréstimo a controlador”. O TCU e o relatório final do
processo de impeachment de Dilma consideram que as “pedaladas” representaram
operações de crédito, o que infringiu a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).
Na reunião do Conselho de
Administração de 25 de setembro de 2014, o diretor jurídico do banco, Jailton
Zanon da Silveira, fez um relato sobre os represamentos dos pagamentos pelos
ministérios, como mostram os documentos obtidos pelo GLOBO.
INQUÉRITO CIVIL NO
DISTRITO FEDERAL
Além do processo das
contas presidenciais, das auditorias do TCU e do processo do impeachment, as
“pedaladas” são objeto de um inquérito civil público em curso na Procuradoria
da República no DF. Em ofício no último dia 5, o procurador Ivan Cláudio Marx,
responsável pelas investigações, pediu que a Caixa esclareça a decisão final da
Diretoria Jurídica sobre o assunto; que medidas foram tomadas após a
recomendação do conselho para o banco se abster de usar a cláusula contratual
que permitia os pagamentos; e se a presidência fez gestão junto ao FAT para
regularizar os saldos negativos. O procurador também pediu o encaminhamento dos
pareceres jurídicos sobre o assunto.
Ao GLOBO, a Caixa afirmou
que o conteúdo das atas mostra o “pleno funcionamento das instâncias de
governança da Caixa, com pareceres jurídicos internos e externos que sustentam
o cumprimento dos contratos e da legislação referente à prestação de serviços
pertinente a cada programa social, além da adoção das medidas de gestão
necessárias ao cumprimento desses contratos”. “A Caixa sempre cumpre as
recomendações de seu Conselho de Administração”, diz o banco.
Segundo a Caixa, a reunião
de 6 de junho de 2014 não fez “qualquer conclusão preliminar” sobre os
pagamentos dos benefícios, e que o conselho jamais se referiu a “pedaladas”,
mas a cláusulas dos contratos de prestação de serviços com a União. “A Caixa
fez gestão para solucionar saldos que ainda existissem em seu favor, atendendo
a todas as recomendações de seu Conselho de Administração.”



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