ABOBADO
Rose e a sedução do poder.
De onde vinha a influência
de Rosemary de Noronha, a mulher que se apresentava como “namorada” de Lula, e com
isso, nomeava afilhados, interferia em órgãos do governo e recebia recompensas.
No Peru, Luiz Inácio Lula
da Silva em viagem ao Peru, em maio de 2008, com Rosemary no detalhe.
Ela
viajou 23 vezes ao exterior na comitiva do presidente.
Uma triste passagem de
bastão marcou a política brasileira, saiu de cena um escândalo político, entrou
outro. De um lado, o Supremo
Tribunal Federal fez história ao definir as penas dos condenados do mensalão.
Treze dos réus, incluindo
o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu, vão para a cadeia em tempo
integral uma rara ocasião na história brasileira em que poderosos pagarão por
seus crimes. De outro lado, uma nova
personagem irrompeu na cena política nacional, Rosemary Nóvoa de Noronha, ou
Rose. Falando em nome de um
padrinho político poderoso, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Rose
trabalhou pela nomeação de vários afilhados no governo federal. Ao se dirigir a diretores
de empresas estatais ou órgãos do governo, Rose frequentemente se apresentava
como “namorada” do ex-presidente. Um dos afilhados de Rose, Paulo Vieira, foi
preso pela Polícia Federal (PF) na Operação Porto Seguro, acusado de chefiar
uma quadrilha que cobrava propinas de empresários, em troca de pareceres
jurídicos favoráveis em Brasília, fosse no governo, nas agências reguladoras ou
no Tribunal de Contas da União.
Rubens Vieira, diretor da
Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), irmão de Paulo e outro dos afilhados
de Rose, também foi preso.
Tão logo o caso veio a
público, na sexta-feira dia 23 de novembro, Rose foi exonerada do cargo que
exercia, como chefe do gabinete da Presidência em São Paulo.
"CHEFÃO", em e-mail, Rosemary avisa Paulo Vieira que falou com o “chefão” sobre
sua nomeação para a diretoria da Agência Nacional de Águas.
O chefão era o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva.
Como foi possível que
Rose, uma simples secretária do PT, acumulasse tanto poder e prestígio, a ponto
de influenciar nos rumos do governo federal e causar tamanho salseiro?
A investigação demonstra
que o poder de Rose advinha da relação dela com Lula.
Não há elementos,
entretanto, de que o ex-presidente soubesse disso ou tivesse se beneficiado
diretamente do esquema”, afirma uma das principais autoridades que cuidaram do
caso.
“Lula cometeu o erro de
deixar que essa secretária se valesse da íntima relação de ambos”, afirma um
amigo do casal Lula e Dona Marisa.
“Deveria ter cortado esse
caso há muito tempo”.
Os autos do processo, de
que ÉPOCA obteve uma cópia integral, e entrevistas com os principais envolvidos
revelam que:
1) Lula, ainda presidente
da República, prestou mesmo que não soubesse disso, três favores à quadrilha.
Por influência de Rose,
indicou os irmãos Paulo Vieira e Rubens Vieira para a direção, respectivamente,
da ANA e da Anac. Lula, chamado em e-mails de “chefão” ou “PR” por Rose, também
deu um emprego no governo para a filha dela, Mirelle.
2) A quadrilha espalhou-se
pelo coração do poder e passou a fazer negócios.
Os irmãos Vieira, aliados
a altos advogados do PT que ocupavam cargos no governo, passaram a vender
facilidades a empresários que dependiam de canetadas de Brasília.
3) Rose, gabando-se de sua
relação com Lula, tinha influência no Banco do Brasil.
Trabalhou pela escolha do
atual presidente do BB, Aldemir Bendine, indicou diretores (um deles a pedido
de Delúbio Soares, o ex-tesoureiro do PT condenado no caso do mensalão),
intermediou encontros de empresários com dirigentes do BB e obteve um contrato
para a empresa de construção de seu marido.
4) Despesas do procurador
federal Mauro Hauschild, do PT, ex-chefe de gabinete do ministro do Supremo
Tribunal Federal Dias Toffoli e, depois, presidente do INSS, foram pagas pela
quadrilha.
É uma situação similar à
do recém-demitido número dois da Advocacia Geral da União (AGU), José Weber
Holanda, que segundo a PF, recebeu propina.
5) A PF, mesmo diante das
evidências de que Rose era uma das líderes da quadrilha, optou por não
investigá-la.
Não pediu o monitoramento
das comunicações de Rose e não quis detonar a Operação Porto Seguro no começo
de setembro, quando a Justiça autorizara as batidas e prisões.
Esperou até o fim das
eleições municipais.
De acordo com o relato
feito a ÉPOCA por um alto executivo que trabalhou na Companhia das Docas do
Porto de Santos (Codesp), Rose evocava sua relação com Lula para fazer
indicações e interferir, segundo seus interesses, nos negócios da empresa.
Nessas ocasiões, diz o executivo, Rose se apresentava como “namorada do Lula”.
“Ela jogava com essa informação, jogava com a fama”, diz ele.
Uma história contada por
ele ilustra o estilo de atuação de Rose.
Em 2005, uma funcionária
da Guarda Portuária passou a dizer na Codesp que fora indicada para o cargo
porque era amiga da “namorada do Lula”.
O caso chegou ao
conhecimento da direção do Porto de Santos.
Um diretor repreendeu a
funcionária e chegou a abrir uma sindicância para apurar o fato e ela foi
demitida.
O executivo conta que,
contrariada, Rose ligou para executivos para cobrar explicações e reafirmou o
que a amiga havia dito “Eu sou a namorada do Lula”.
Os executivos acharam que
ela blefava.
“No começo, a gente não
sabia que ela era tão forte”, diz um deles.
No Porto, ela foi
responsável pelas indicações de Paulo Vieira e do petista Danilo de Camargo,
ligado ao grupo do ex-ministro José Dirceu no PT.
Os dois passaram a atuar
em parceria com Valdemar Costa Neto, o deputado pelo PR condenado à prisão por
corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do mensalão, responsável por
indicar o presidente da Codesp.
Um dos interesses desse
grupo era perdoar uma parcela da dívida da empresa transportadora Libra com a
Codesp.
O valor da dívida era de R$
120 milhões.
O acordo foi fechado no
Ministério dos Transportes, então controlado pelo grupo ligado a Costa Neto, e
contou com o aval de Camargo, presidente do Conselho de Administração.
O PT de Santos, liderado
pela ex-prefeita Telma de Souza, ficou revoltado com os termos do acordo e
resolveu cobrar explicações de Camargo.
Novamente Rose entrou em
ação para defender os interesses da Libra, do PR de Costa Neto e de Paulo
Vieira.
Na ocasião, diz o alto
executivo, ela evocou novamente o nome de Lula.
Nos telefonemas que dava
aos petistas contrários ao perdão da dívida, afirma ele, Rosemary sempre
mencionava o então presidente.
Rose tem 57 anos, começou
jovem na militância política e sua turma, dentro do PT, é uma turma das
antigas.
Seus principais interlocutores
no partido, além de Lula, são Paulo Frateschi, secretário de organização do PT,
e os já mencionados Camargo e Dirceu.
Rose trabalhou como
assessora de Dirceu nos anos 1990.
Acompanhou de perto sua
ascensão à presidência do PT.
No total, foram 12 anos de
parceria.
Foi no período em que
trabalhava com Dirceu que Rose conheceu Lula.
Em fevereiro de 2003, com
Lula no Planalto, Rose se tornou assessora especial do gabinete regional da
Presidência em São Paulo.
Em 2005, tornou-se chefe
da unidade.
Seu poder no partido foi
crescendo.
Ela fazia triagem informal
dos currículos de candidatos a cargos do segundo escalão.
Nessa época, começou a
exercer influência também no Banco do Brasil.
Rose trabalhou, de acordo
com políticos e executivos do setor bancário, pela indicação de Aldemir Bendine
para a presidência do BB.
A proximidade com Bendine
permitiu que Rose, em 2009, conseguisse um emprego para José Cláudio Noronha,
seu ex-marido.
Noronha ganhou a vaga de
suplente no Conselho de Administração da Aliança Brasil Seguros, atual
Brasilprev.
De acordo com as
investigações da PF, Paulo Vieira forjou um diploma de curso superior para que
Noronha cumprisse uma exigência da Brasilprev e assumisse a vaga.
Em agosto do ano passado,
o mandato de Noronha foi renovado.
Rose era também próxima de
Delúbio Soares, o ex-tesoureiro do PT condenado a oito anos e 11 meses de
prisão no caso do mensalão.
Os dois costumavam tomar
café no Conjunto Nacional, centro comercial próximo ao prédio do gabinete da
Presidência.
A pedido de Delúbio,
segundo executivos do BB, ela usou sua proximidade com Bendine para conseguir a
nomeação de Édson Bündchen para a superintendência do BB em Goiás, em setembro
passado.
Rose circulava tão bem no
BB que pairava acima das disputas fratricidas entre seus diretores.
Era próxima também de
Ricardo Flores, ex vice presidente de crédito e ex presidente da Previ, o
bilionário fundo de pensão dos funcionários do banco.
Flores e Bendine travaram
embates corporativos constantes e são considerados inimigos.
Isso nunca impediu Rose de
se sentir segura para pedir favores a ambos.
Em 25 de março de 2009,
Rose pediu a Flores que examinasse um pedido de empréstimo de cerca de R$ 48
milhões da empresa Formitex.
Era um desejo de Paulo
Vieira, na época ele ainda não era diretor da ANA.
“Gostaria que encaminhasse
esses dados técnicos ao Dr. Ricardo (Flores) e, se possível, conseguisse uma
agenda para o Dr. César Floriano”, diz Paulo em e-mail para Rose que consta do
inquérito policial.
Floriano era um dos
empresários que bancavam a quadrilha.
Em 17 de agosto de 2009,
Rose encaminha outro e-mail a Paulo em que pergunta se “aquele assunto do
Flores foi resolvido”.
Poucos minutos depois,
Paulo responde, “As coisas com o Flores estão caminhando bem, ele tem sido
muito legal e parece que vamos avançar bastante” (leia o e-mail abaixo).
De acordo com a
investigação da PF, além do emprego para o ex-marido, Rose usou seus contatos
no BB para ajudar o atual, João Vasconcelos.
Documentos apreendidos
pela polícia na casa de Rose, em São Paulo, mostram que a construtora de
Vasconcelos, a New Talent, obteve um contrato de R$ 1,1 milhão (sem licitação) com
a Cobra Tecnologia, subsidiária do BB.
Tratava-se de uma obra de
adequação e reforma do novo centro de impressão da empresa em São Paulo.
Mais uma vez, Rose
recorreu a Paulo Vieira para forjar documentos.
A Associação Educacional e
Cultural Nossa Senhora Aparecida, mantenedora da faculdade de propriedade de
Vieira em Cruzeiro, São Paulo, emitiu um falso atestado de capacidade técnica
para a New Talent conseguir o contrato com a Cobra.
Em maio de 2010,
funcionários da Cobra encaminharam a Vasconcelos o contrato com a New Talent.
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