segunda-feira, 19 de dezembro de 2011


MULHERES DE ANTENAS

Celebrada na condição de primeira mulher presidente do Brasil
Dilma Rousseff até agora deixou passar
seis oportunidades de atuar em consonância com a expectativa

corrente em relação às mulheres, de maior rigor na vida pública.

Uma maneira de fazer isso seria mostrar genuína disposição de

liderar um processo de mudança nos critérios de funcionamento
do governo de coalizão.

Duas mulheres deram exemplos recentes nos quais Dilma ainda

dispõe de tempo para se mirar:
Eliana Calmon e Marília Muricy, baianas conectadas com a
necessidade de não se deixar o Brasil, por mais sucessos que
tenha na economia, perder-se nos desvãos da desqualificação moral.

Ambas demonstraram coragem e firmeza efetivas para sacudir

nichos até então intocados.
Eliana, corregedora do Conselho Nacional de Justiça, com suas
diatribes sobre a conduta de magistrados, lança alguma luz sobre
a caixa-preta do Judiciário. Faz a diferença.

Marília, autora do relatório que recomendou a saída de Lupi, deu

sentido à Comissão de Ética Pública que desde a criação
no governo Fernando Henrique, nunca havia sido contundente na
tarefa de zelar pela confiabilidade dos ocupantes de cargos
no primeiro escalão federal.

Tanto uma quanto outra recebem críticas daqui e dali, mas

mantêm suas posições.
A corregedora a cada dia aponta com clareza uma deformação no

Judiciário e a conselheira, quando confrontada com a insatisfação
do Palácio do Planalto a respeito do voto, aprovado por unanimidade
pelo colegiado, reafirmou a posição.

No caso da presidente da República, suas ações têm implicações

mais amplas, evidente.
Até certo ponto são compreensíveis as dificuldades políticas que enfrenta.

Não é do dia para a noite que se vira de cabeça para baixo um sistema

herdado, em vigor há muito tempo e, sob a ótica do pragmatismo extremo
governamental e eleitoralmente falando, vitorioso.
Por isso mesmo a presidente conta a seu favor com o benefício da dúvida.

Até agora Dilma Rousseff não tem seguido a trilha da ousadia.
Para efeito de propaganda ela é a dona da dita "faxina", mas no confronto
com a realidade o que emerge de fato é a tomada de decisão a reboque
dos fatos e a manutenção das igrejinhas nas mãos dos mesmos párocos.

Na reforma, ela pode mudar essa situação.
Tudo vai depender da escolha que fizer:
Inovar ou deixar tudo mais ou menos como está, na suposição de que

o time, sendo vencedor, deve continuar obedecendo as mesmas regras.

O que a presidente pensa sobre a reforma não se sabe.
Ela tem consultado alguns ministros, Gleisi Hoffmann, José Eduardo Cardozo

e Fernando Pimentel, conversa a respeito com o vice-presidente Michel Temer
obviamente deve se aconselhar com o ex-presidente Lula, mas até agora
nada transpirou a respeito do essencial, a adoção de critério mais profissional
para a nomeação de ministros.

Embora as apostas em Brasília apontem para alterações meramente pontuais

não se pode perder a esperança de Dilma nos reservar uma boa surpresa
conferindo conteúdo substantivo à sua gestão, a fim de que a condição de
primeira mulher presidente do Brasil não seja um dístico vazio.

ATAREFADA 
Versão corrente no Palácio do Planalto para explicar porque Dilma não

demitiu Carlos Lupi na quinta-feira, quando foi anunciada a recomendação
da Comissão de Ética Pública:
Ocupadíssima com o pacote de medidas de incentivo ao consumo e os
preparativos da viagem à Venezuela, a presidente preferiu deixar para
"tratar desse problema na segunda-feira".

CERIMONIAL
Há duas vantagens, na visão do governo, na nomeação do

secretário executivo Paulo Roberto Pinto como interino no Ministério do Trabalho:
A presidente não abre espaço agora para a disputa do lugar e também evita a
cerimônia de posse, com a presença de Lupi e os elogios de praxe ao demitido.

Desta vez qualquer desagravo, por mais formal que fosse

soaria especialmente constrangedor.


("GAZETA DO POVO", de 06/12/2011)

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