Há muito tempo ouço dúvidas relacionadas à possibilidade de um casal fazer parte do mesmo axé, tendo ambos o mesmo zelador.
Toda a dúvida surge a partir do momento que, sendo filhos do mesmo zelador, passam a ser considerados irmãos e, como tal, ao manterem uma relação carnal, estariam cometendo incesto.
Entende-se como incesto a relação sexual ou marital entre parentes próximos ou alguma forma de restrição sexual dentro de determinada sociedade.
O incesto é um tabu em quase todas as culturas humanas, sendo por isso considerado um tabu universal.
Pessoas que formam casal podem sim serem filhos do mesmo zelador e, consequentemente, serem do mesmo axé.
Não existe qualquer impeditivo religioso para isto.
O que existe é uma enorme confusão, alimentada pelos tabus sociais, que insistem em igualar e tratar como a mesma coisa irmãos carnais e irmãos espirituais.
Uma coisa nada tem a ver com a outra.
Agora o porquê?
Do ponto de vista teológico e espiritual, se acreditamos em Deus e dele nos julgamos filhos, somos, em espírito, todos irmãos, ou seja, já nascemos irmãos espirituais!
Porém, o conceito de irmandade aqui mencionado é figurativo, religioso e não biológico.
Na própria Bíblia dos Cristãos, somente se fala da existência do incesto quando há relacionamento sexual entre Pais e filhos e entre filhos, portanto há de se ter consanguinidade para existir incesto, como foi narrado em três episódios bíblicos, duas no livro de Gênesis e uma no segundo livro do profeta Samuel.
A primeira diz respeito a Ló e suas filhas, onde elas embebedam o pai e com ele se deitam para ficarem grávidas e terem filhos com ele (Gênesis 19:30-38).
A segunda diz respeito a Abraão, que revela ao rei Abimeleque que Sara de fato era sua irmã, não somente sua esposa (Gênesis 20:10-16).
Já a terceira diz respeito ao relacionamento de Amnon e Tamar, meio-irmãos por parte de pai, pois ambos eram filhos do rei David (2 Samuel 13). Não há, portanto, em nenhuma religião, o incesto entre irmãos espirituais.
No Candomblé, pelo contrário, por ser uma religião de tradição familiar, estimula-se muito que casais (independente da opção sexual), participem do mesmo axé e sejam irmãos espirituais.
No entanto, para se preservar a respeitabilidade, a integridade e os valores éticos e morais da sociedade em que a casa de Candomblé está inserida, se evita que um toque, use ou cuide da coisa do outro.
Porém, isto é apenas uma decisão de caráter social, ético e moral.
Não é uma regra ou uma obrigatoriedade.
O fato de um marido dar Ossé no Santo da sua esposa não encontra nenhum fundamento religioso que o impeça.
Porém, para evitar qualquer tipo de problemas ou, principalmente, de comentários, evita-se que isto ocorra na maioria das casas de candomblé.
Entendam, esta restrição é apenas um tabu e não um fundamento.

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