Ògún é um Òrìsà que não suporta que o ignorem.
Ele é Òrìsà Pàtàkì (importante), e não tolera que não lhe dêem a devida importância e atenção.
Nessa cidade morava, na mesma época, um desafeto de Ògún, que era conhecido como um grande feiticeiro (Osó), que se chamava Àparò Degbeaha.
E sabedor desse fraco de Ògún, Àparò organizou uma cerimônia ritual na cidade, em que as pessoas teriam que ficar sem falar, comer e beber por um dia inteiro.
E esse dia coincidiria com o dia da chegada de Ògún, somente para irritá-lo.
Quando Ògún chegou na cidade, ninguém falava com Ele, ninguém o saudou como Òrìsà importante, aquilo já o deixou enfurecido.
Mas, como Ele estava com fome, dirigiu-se a uma cantina para que lhe servissem comida e emu (vinho de palma).
Chegando lá, ninguém o saudou, nem lhe dirigiu a palavra.
Ele pediu que lhe dessem comida e bebida, mas, ninguém lhe respondeu alguma coisa ou serviu-o, porque naquele dia era dia de abstinência total.
Quando Ele insistiu e mais uma vez foi ignorado, pegou o facão e golpeou os barris de vinho, derramando tudo no chão, quando vieram para impedir que Ele fizesse aquilo, Ele cortou as pessoas ao meio.
E dizem, que quando Ògún fica nervoso, ele perde completamente o juízo.
E assim foi.
Ele matou homens, mulheres, crianças e depois foi para casa.
No dia seguinte foram à sua casa para lhe pedirem que Ele não continuasse zangado com o povo da cidade, e lhe explicaram o que tinha acontecido e do festival organizado por Àparò. Quando tomou conhecimento de tudo, Ògún ficou enfurecido, mas, desta vez, contra Àparò. Pois, ao saber que matara tantas pessoas inocentes por causa dele Àparò, Ògún sentiu grande arrependimento, mas, o mal já estava feito.
Ele saiu à procura de Àparò, este quando avistou Ògún vindo em sua direção, fugiu.
Mas, Ògún perseguiu-o.
Àparò estava desesperado, pois, sabia que Ògún não teria compaixão dele.
Então, fugiu, mas, Ògún o perseguiu, e quando estava quase sendo alcançado por Ògún, Àparò transformou-se num pássaro e voou para o alto do igi opé (a palmeira de Òrúnmìlà).
Como era uma palmeira sagrada, ele achava que Ògún não a tocaria.
Mas, estava enganado, Ògún começou a golpear a palmeira, acabando por derrubá-la.
Num último esforço de esperança, Àparò, escondeu-se por entre as folhas da palmeira, pois, achava que Ògún não cometeria o sacrilégio de destruir toda a palmeira de Òrúnmìlà.
Estava enganado novamente.
Ògún desfolhou a palmeira e agarrou Àparò, que pediu clemência, mas Ògún sem responder nada, cortou-lhe a cabeça que rolou diante de si, que sentiu-se vingado.
Como Àparò era um feiticeiro poderoso, não morreu imediatamente.
Ele olhou para Ògún e lançou uma praga, dizendo:
“Você Ògún, insensato que é, na hora da minha morte eu lhe coloco meu último feitiço, o de que você haverá sempre de fazer coisas na hora da raiva e se arrepender tardiamente, como foi hoje. Essa maldição cairá sobre você Ògún e todos os seu filhos, que haverão de fazer coisas na hora da raiva e se arrependerem depois, quando já não houver mais conserto”.
E tendo dito isto, morreu.
A história conta que foi a partir daí que Ògún sempre que ia matar um desafeto, amarrava suas mãos, pés e prendia sua boca, para que ele não lhe rogasse praga, como Àparò.
Daí também, os sacerdotes que executavam sacrifícios, passaram a imobilizar suas vítimas porque também temiam a praga de Àparò Degbeaha.
É o que fazemos até hoje quando vamos sacrificar qualquer animal no ritual, prendemos suas bocas ou bicos, patas e asas, para que não se debatam.
Esse debater é interpretado como uma praga na hora da morte, e não se quer dar chance a nenhuma das vítimas dos sacrifício de amaldiçoarem seus executores.
Como dizia na maldição de Àparò, Ògún não sentia paz por causa de ter matado tanta gente inocente.
Então, reuniu as pessoas da cidade e disse-lhes que iria embora e que só voltaria se precisassem da sua ajuda.
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