Governo determina sigilo de 30 anos
sobre R$ 1 bilhão gastos em porto cubano

Todos já sabem que o
governo Dilma 'deu' através do BNDES mais de R$ 1 bilhão para os ditadores
cubanos reestruturarem o tal porto Mariel. O que poucos sabem, é que os
detalhes da 'doação' estão sob sigilo absoluto por 30 anos. Entretanto, em face
da era da informação, algumas coisas vazam de quando em vez.
Documento mostra alguns
detalhes da operação financeira para bancar porto
O Banco Nacional do
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) já repassou o equivalente a mais de
R$ 1 bilhão à construtora Odebrecht pela reforma do porto de Mariel, em
Cuba, um negócio mantido em sigilo, por até 30 anos, pelo governo
brasileiro, que considera que a revelação dos detalhes do financiamento “põe em
risco as relações internacionais do Brasil” e pode “levantar
questionamentos desnecessários”, conforme extrato de classificação de
documentos.
Esses papéis mostram que
uma parte do custo do financiamento envolveu parcelas pagas “a fundo perdido
pela União” – o governo diz que isso não motivou sigilo.
A empreiteira baiana
ainda tem o equivalente a mais de R$ 500 milhões a receber do governo
brasileiro por essa obra em Cuba.
Para modernizar o porto de
Mariel, o governo cubano, dos irmãos Fidel e Raul Castro, escolheu a
construtora brasileira. Depois, o BNDES financiou o empreendimento de US$ 957
milhões com US$ 692 milhões (R$ 1,5 bilhão), repassando os valores
integralmente à Odebrecht. Mas os detalhes da operação, como garantias e prazos
de pagamento, são mantidos em sigilo pelo Brasil.
Um empréstimo da
construtora a uma empresa de consultoria, que o Conselho de Atividades
Financeiras (Coaf) considera como possibilidade de “desvio de recursos
públicos”, deve ser um dos temas de audiência pública com o presidente do
banco, Luciano Coutinho, na Comissão de Fiscalização Financeira da Câmara, na
quarta-feira (28). O negócio foi revelado pelo Congresso em Foco no último dia
19.
Em janeiro, Dilma Rousseff
e o presidente Raul Castro inauguraram a reformulação do porto cubano. De
acordo com o BNDES, a obra está “praticamente concluída” e, por isso, nem todo
o dinheiro foi repassado à Odebrecht, mas só 70%. Os desembolsos são feitos à
medida que a construção vai ficando pronta. O BNDES diz que não financia o
governo cubano, mas “o exportador brasileiro” de obras e serviços. Em caso de
eventual calote de Cuba, hipótese abraçada pela oposição no Congresso, a
Odebrecht não será responsabilizada.
Dois anos após iniciar
as obras no porto, a Odebrecht concedeu um empréstimo de R$ 3 milhões a uma
consultoria, a Noronha Engenharia.
No ano seguinte, sem que o
débito fosse quitado, a construtora firmou um contrato de R$ 3,6 milhões para
que a empresa carioca avaliasse a qualidade das estruturas do porto. Mas um
email atribuído ao setor financeiro da empreiteira cobra da Noronha a devolução
de R$ 2,5 milhões desses valores. Os “pagamentos-espelho” foram negados pela
Odebrecht, que disse não reconhecer a autenticidade da mensagem eletrônica e
negou a devolução de dinheiro. Já a Noronha respondeu que os pagamentos eram
atrelados ao serviço em Cuba como forma de quitar o empréstimo anterior. O
Coaf, porém, estranha a operação. Deputados do Solidariedade e do PPS prometem
questionar Luciano Coutinho sobre o assunto.
Os pegadores de carona
que não fazem nada mais do que 'dar o tapa e esconder a mão'
O líder do PPS, Rubens
Bueno (PR), diz que a alegação de segredo não pode impedir a fiscalização do
negócio pelo Congresso Nacional. “Tudo isso com que os bancos se blindam é o
tal do sigilo bancário. A comissão pede as informações, em sigilo, para saber
se houve crime ou não, se houve privilégio ou não”, disse o deputado ao site.
Bueno pede a aprovação de uma Proposta de Fiscalização e Controle (PFC),
espécie de mini-CPI dentro da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, e
pretende questionar Luciano Coutinho sobre o assunto na audiência da Comissão
de Fiscalização e Controle. “Queremos tirar essa blindagem do sigilo e partir
para a investigação.”
Simplício Araújo (SD-MA)
disse que vai fazer um requerimento formal do BNDES para esclarecer o negócio
da consultoria que atestou as obras da Odebrecht. “Parece negociação de
prefeito corrupto do interior”, diz Simplício.
FUNDO PERDIDO
O BNDES se negou a
informar ao Congresso em Foco em quantas parcelas emprestou os US$ 692
milhões a Cuba para a construção do porto de Mariel e quando vencem a primeira
e a última prestações. “Questões relativas a condições financeiras de
contratos são protegidas pela lei de sigilo bancário”, disse a assessoria do
banco.
Um Termo de Classificação
de Informação produzido há dois anos pelo gabinete do então ministro do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), Fernando Pimentel, e obtido
pelo Congresso em Foco mostra alguns detalhes da operação. De acordo com
ele, o empréstimo acertado em 2008 era um pouco menor, de US$ 600 milhões, para
serem usados durante quatro anos. Há condições específicas para Cuba, como
prazo de pagamento para começar a quitar o empréstimo e as contrapartidas dos
cubanos no negócio.
O documento menciona que
as condições de financiamento envolvem o custo da operação. E que essa operação
é formada também por uma parcela paga, “a fundo perdido pela União”, do
Programa de Financiamento à Exportação (Proex), na modalidade Equalização.
Nesse sistema, o programa, cujo agente é o Banco do Brasil, o Proex “assume
parte dos encargos financeiros, tornando-os equivalentes àqueles praticados no
mercado internacional”, conforme definição constante em outros documentos do
MDIC.
Procurada, a assessoria do
ministério afirmou que o sigilo das informações foi motivado porque a
publicidade do caso “comprometer a condução de outras negociações e as relações
internacionais do Brasil”, com base na Lei de Acesso à Informação. “Não há que
se falar que a classificação dessas informações se deu por se tratar de recurso
“a fundo perdido”.
“QUESTIONAMENTOS
DESNECESSÁRIOS”
De acordo com o Termo de
Classificação, o negócio foi classifico com o grau de “sigilo secreto”. Por
isso, deve ficar em segredo por 15 anos a partir de 2008, prazo prorrogável uma
vez, ou seja, até 2038.
No termo, o gabinete de
Pimentel afirma, em 18 de junho de 2012, que memorandos de entendimento,
protocolos, cartas, pareceres, correspondências e notas técnicas sobre o
financiamento, à época avaliado em US$ 600 milhões, devem ficar em sigilo
porque as informações “põem em risco” as relações internacionais, outras
negociações entre Brasil e Cuba e ainda revelarão papeis de outros Estados e
organismos internacionais fornecidos em caráter reservado. A divulgação das
condições do empréstimo pode “inviabilizar outros projetos e levantar
questionamentos desnecessários” e “resultar em constrangimentos diplomáticos”.
Operações com outros
países poderiam ficar prejudicadas, porque as condições específicas seriam
outras, “apesar de seguirem parâmetros internacionais”.
EXPORTAÇÕES
A assessoria do MDIC disse
que “dados referentes ao financiamento de exportações brasileiras” foram
considerados sigilosos, e listou três documentos que estão nesta situação,
inclusive Cuba. De acordo com a assessoria, os valores desembolsados não estão sob
segredo e podem ser acessados no site do BNDES.
Na página do banco,
observa-se que foram exportados para Cuba, com apoio do banco, US$ 802 milhões
entre 1998 e 2013. No segundo governo Fernando Henrique (PSDB), de 1998 a 2002,
o volume de exportações bancadas pelo BNDES para Cuba foi de US$ 7,5 milhões
por ano. Já na era Lula-Dilma (PT), de 2003 a 2013, a média anual saltou para
US$ 69,5 milhões.
VISTORIAS
Assim como o BNDES, o
Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio não comentou a operação financeira
entre a Odebrecht e a consultoria. O banco disse ao site que, por padrão
de controle, fiscaliza as obras que financia por meio de vistorias in loco e
conferência de gastos na execução do projeto. A assessoria do BNDES disse que a
empreiteira já havia sido escolhida pelo governo cubano para reformar o porto
de Mariel e só depois pediu o financiamento bancário, cuja aprovação “obedeceu
aos ritos ordinários de concessão de qualquer empréstimo” na instituição
dirigida por Luciano Coutinho.
O banco frisou que o
dinheiro não saiu do Brasil, mas foi integralmente usado em empresas nacionais.
“O Brasil atua de modo análogo à maioria dos países, já que o apoio às
exportações por meio de instituições estatais é parte de estratégia nacional
para promover o desenvolvimento”, disseram, em artigo no Valor Econômico,
a superintendente e o chefe de Comércio Exterior do banco, Luciene Machado e
Luiz de Castro Neves. Pelas normas divulgadas no site da instituição, a
construção de portos financiada pelo banco exige nacionalização de pelo menos
60% das peças.
SEGURO
O presidente da Odebrecht,
Marcelo Odbrecht, que esteve com Dilma Rousseff na inauguração do porto de
Mariel, defendeu o sigilo, em artigo na Folha de S.Paulo. “As únicas
informações que não são públicas são as usuais das operações bancárias, como o
valor do seguro, eventuais contragarantias e taxas que compõem a operação”.
Dados do BNDES mostram
que, no ano passado, a instituição teve lucro líquido de R$ 8,15 bilhões. A
inadimplência foi de apenas 0,01%. Marcelo Odebrecht rebateu as especulações
sobre um eventual calote cubano, responsável por pagar o empréstimo canalizado
para a empreiteira. “A ocorrência de calotes não está relacionada a
alinhamentos ideológicos: os maiores defaults recentemente enfrentados vieram
dos EUA e Chile”, disse o presidente da construtora.
.
Nenhum comentário:
Postar um comentário