ASSESSORES DE GUIDO
MANTEGA SÃO ACUSADOS DE DESVIO DE DINHEIRO
Uma empresa que detém
contrato superfaturado com o Ministério da Fazenda é suspeita de pagar propina
a dois assessores do ministro
PARCEIROS
Marcelo Fiche, chefe de gabinete de Mantega (à dir.)
levou o amigo Humberto Alencar (à esq.) à assessoria
da Fazenda.
Ambos deram início à contratação da Partners
Em abril deste ano, a
jovem Anne Paiva, secretária da empresa Part¬ners, que detém contrato de
assessoria de imprensa com o Ministério da Fazenda, dirigiu-se à agência do
Banco do Brasil onde mantém sua conta bancária, na cidade de Sobradinho, nos
arredores de Brasília. Contratada pela Partners desde janeiro, Anne cuidava das
tarefas burocráticas da empresa na capital: atendia telefonemas, pagava contas,
encaminhava documentos para os clientes. Ganhava R$ 1.300 por mês. Naquele dia
de abril, disse Anne a ÉPOCA, ela sacou em dinheiro vivo, da mesma conta em que
recebia seu salário, R$ 20 mil que haviam sido transferidos pela Partners de
outra conta no Banco do Brasil – a conta em que o Ministério da Fazenda
deposita, todo mês, o que deve à empresa. Anne afirma que acomodou o dinheiro
num envelope, atravessou a cidade e subiu ao 5º andar do Ministério da Fazenda.
Segundo seu relato, Anne encontrou quem procurava numa sala ampla próxima ao
gabinete de Guido Mantega: o economista Marcelo Fiche, chefe de gabinete de
Mantega e, hoje, segundo homem mais poderoso da Pasta. Entregou-lhe o envelope,
como se fosse um simples documento. De acordo com Anne, Fiche não conferiu o
conteúdo do envelope. Apenas sorriu e agradeceu.
POLÍCIA FEDERAL VAI INVESTIGAR DOIS ASSESSORES DE
MANTEGA.
“Manda um abraço para o
Vivaldo!”, disse Fiche ao se despedir, segundo o relato de Anne. Vivaldo Ramos
é o diretor financeiro da Partners, uma empresa de Belo Horizonte. Era chefe
imediato dela. Fora Vivaldo que avisara Anne, para sua perplexidade, que a
Partners acabara de fazer um “depósito de suprimento” na conta dela. De acordo
com Anne, fora Vivaldo que a mandara sacar o “suprimento” e entregá-lo a Fiche.
Aquela foi a primeira das quatro vezes em que, segundo Anne, ela aceitou
distribuir dinheiro a Fiche e a outro assessor de Mantega: Humberto Alencar,
chefe de gabinete substituto e fiscal do contrato do ministério com a Partners
– cabe a Alencar autorizar os pagamentos da Pasta à Partners. Ainda de acordo
com Anne, Fiche e Alencar receberam, das mãos dela, um total de R$ 60 mil.
Sempre em dinheiro vivo. As entregas, segundo Anne, aconteceram ao lado do
gabinete de Mantega e no escritório da Partners em Brasília. Depois de fazer o
quarto repasse de propina, Anne comunicou à Partners que não faria mais
pagamentos. Temia o que poderia lhe acontecer se as autoridades descobrissem.
Na manhã do dia 11 de
setembro, Anne esteve na sucursal de ÉPOCA em Brasília para contar o que sabia.
Por que ela decidira fazer isso? Anne afirmou que se casaria em breve e que, em
seguida, se mudaria para a cidade natal do noivo. Em razão dessa mudança, deixaria
o emprego na Partners. A princípio, narrou Anne, a Partners topara, em virtude
dos bons serviços prestados por ela, pagar-lhe como se a tivesse demitido. Em
seguida, a empresa mudara de ideia, sem dar explicações. Anne, portanto, estava
indignada com o que considerava ser uma traição da empresa pela qual se
arriscara. Temia ser obrigada a pagar mais impostos por causa da pequena
fortuna que fora depositada em sua conta. “Diante de todo o estresse que
passei, não quero ficar calada”, disse. “A pessoa que entrar lá no meu lugar
(na Partners)passará por isso também. No dia em que a bomba estourar, quando
alguém descobrir, lembrarão só da secretária.”
Retribuição não parecia
ser o único motivo de Anne. Ela também demonstrou, em diversos momentos,
indignação moral com o esquema: “Não é justo o que eles (Partners e assessores
da Fazenda) fazem. É dinheiro público, dinheiro seu e meu”. Ela repassou a
ÉPOCA uma extensa documentação interna da Partners. Os papéis corroboravam seu
depoimento. Tratava-se de e-mails, extratos de mensagens via Skype,
comprovantes bancários, planilhas de pagamentos e cópias das prestações de
contas da empresa ao Ministério da Fazenda.
Comprovavam, entre outras
irregularidades, que a Partners transferira altas somas para a conta dela e a
orientara a entregar o dinheiro aos dois assessores de Mantega. Numa das
mensagens de Skype, datada do dia 4 de julho deste ano, Vivaldo pede a Anne
para entregar R$ 15 mil a Alencar. “Em Brasília, eu era o braço direito e
esquerdo da Partners”, disse. “Servi de laranja por quatro vezes, para a
empresa poder passar (dinheiro) ao chefe de gabinete do ministro.”
Anne afirmou que tomou um
susto ao descobrir o primeiro depósito em sua conta: R$ 20 mil. Para Anne,
correspondia a mais de um ano de salário. “Não avisavam que o dinheiro
entraria. Nunca me pediram autorização. O Vivaldo dizia apenas: ‘Tem quantia x
na sua conta. Vá ao banco retirar e entregar para o Marcelo (Fiche)’”, disse
Anne. As comunicações entre ela e o chefe transcorriam sempre por mensagens de
texto no Skype, conforme comprovam os documentos apresentados por ela.
“Servi de laranja para
pagar propina ao chefe de gabinete”, diz a secretária Anne Paiva.
Como é comum em situações
desse tipo, Anne pediu anonimato a ÉPOCA, por temer represálias num possível
novo emprego. Pediu também que ÉPOCA não publicasse uma reportagem sobre o
assunto até que ela conseguisse receber uma indenização da Partners. Em troca
do anonimato, comprometeu-se a não chantagear a Partners com o que contara a
ÉPOCA, de modo a receber a indenização que esperava – situação, infelizmente,
também comum no mundo do jornalismo. Anne, também em troca do anonimato, se
comprometeu a repassar a ÉPOCA uma cópia completa de seus extratos bancários e
a colaborar com a reportagem até o fim da apuração.
Nos últimos dois meses,
ÉPOCA cumpriu sua parte no acordo. Esperou que Anne recebesse o que ela dizia
lhe ser devido em indenização trabalhista. Manteve-a no anonimato. Anne, porém,
passou a evitar os contatos de ÉPOCA. Não disse quanto recebera posteriormente
da Partners. Recusou- se a fornecer os extratos bancários que prometera. Em
seguida, disse que não fizera isso porque fechara a conta que mantinha no Banco
do Brasil. ÉPOCA descobriu que isso não era verdade. Confrontada, ela não explicou
seu comportamento. Diante desse conjunto de fatos e a consequente quebra do
acordo, ÉPOCA comunicou Anne, há dez dias, que ela perdera a proteção do
anonimato e que seu nome seria publicado.
Apesar da súbita
desistência dela em colaborar, ÉPOCA descobriu evidências, nas últimas semanas,
que reforçam a verossimilhança e a consistência factual do depoimento de Anne.
Durante semanas, o Ministério da Fazenda negou-se a franquear acesso à íntegra
dos documentos internos da Pasta sobre o contrato com a Partners, como ordens
de pagamento e as prestações de contas da empresa. Em determinado momento, os
documentos chegaram a ser retidos no gabinete de Fiche. ÉPOCA conseguiu cópia
dos papéis somente depois de recorrer à Lei de Acesso à Informação. Os documentos,
além de corroborar o que Anne contara, revelam fortes evidências de que o
contrato é superfaturado e que, para receber além do que lhe é devido, a
Partners frauda a prestação de contas que apresenta todo o mês ao ministério.
Há, ainda, indícios de que Fiche nomeou uma prima e uma ex-namorada para
trabalhar como assessoras da Pasta. A facilidade com que a Partners extraía
dinheiro da Fazenda demonstra, portanto, que sobravam razões para os pagamentos
de propina narrados por Anne.
Os documentos obtidos por
ÉPOCA revelam que partiu precisamente de Alencar, com a anuência de Fiche, a
ordem para contratar uma assessoria de imprensa para a Fazenda. Em setembro do
ano passado, ambos assinaram um “termo de referência”, em que argumentam que o
serviço de assessoria de imprensa da Pasta, até então feito por quatro
funcionários com cargos de confiança, precisava ser ampliado e
profissionalizado, por causa da alta demanda da imprensa. Nenhum burocrata se
opôs. Tudo transcorreu rapidamente. Em dezembro, a Partners venceu o pregão
promovido pela Pasta, mesmo sem apresentar seu balanço patrimonial, como
determinava o edital. Ainda em 2012, o Ministério da Fazenda assinou com a
Partners o contrato de R$ 4,4 milhões por um ano de serviço. “A empresa
apresentou os documentos necessários”, diz o pregoeiro Idênes Silva.
Ao contrário de contratos
semelhantes na Esplanada, em que o governo paga pela mão de obra fornecida, o
acordo assinado pela Fazenda com a Partners previa o pagamento por horas
trabalhadas. Estimavam-se 4.200 horas por mês. No primeiro mês de contrato, a Partners
contratou dez jornalistas para trabalhar na Fazenda. Ainda em janeiro, Alencar
foi nomeado fiscal do contrato. Ele aprovou, em seguida, o primeiro pagamento
mensal para a Partners. A acreditar na prestação de contas aprovada por
Alencar, cada um dos dez jornalistas trabalhava, em média, 13 horas por dia –
período distante das sete horas por funcionário informadas pela Partners ao
Ministério do Trabalho e à Previdência.
Nos meses seguintes, o
número de horas previsto pelo ministério – e cobrado pela Partners – permaneceu
o mesmo. Foram planejadas 300 horas para um “jornalista master”. Considerando
um mês com 22 dias úteis, esse profissional trabalhou quase 14 horas diárias.
Em março, os funcionários trabalharam, em média, 19 horas por dia. Como alguém
percebesse que o número de horas pago era fantasioso, a Part¬ners passou a
acrescentar contracheques de novos funcionários. Os 13 funcionários de abril
transformaram- se, ao longo dos meses, em 21. A média de horas que cada um
trabalhava, em tese, caiu para dez horas diárias. Os funcionários que batiam
ponto diariamente na Fazenda, porém, permaneceram os mesmos. Quem eram os
outros?
Eram fantasmas. Ao todo,
aparecem na prestação de contas nomes, valores dos salários e contracheques de
11 deles. Nenhuma dessas pessoas trabalha ou trabalhou na Fazenda – ou sequer
mora em Brasília. ÉPOCA ouviu quatro funcionárias e uma ex-funcionária entre
esses 11 profissionais listados pela Partners. Três trabalham na Partners em
Belo Horizonte, na assessoria de imprensa da distribuidora de energia Cemig.
“Estou assim... Nunca trabalhei no ministério, não”, disse, após um longo
silêncio, uma das funcionárias, surpreendida pela informação. “Não sabia que
meu nome estava na prestação de contas do contrato com o ministério”, disse
outra, que atende à Comissão de Valores Mobiliários, no Rio de Janeiro. Em
média, a Partnersnet recebe R$ 329 mil mensais da Fazenda e afirma gastar R$
105 mil com salários. Na realidade, os documentos revelam que a empresa gastou
apenas R$ 63.700 com salários.
Enquanto Alencar
sancionava as prestações de contas fraudulentas da Partners, o diretor Vivaldo
determinava, segundo Anne, o pagamento das propinas. Depois da primeira entrega
de R$ 20 mil a Fiche, em abril, Anne disse que o pagamento seguinte, também a
Fiche e igualmente feito ao lado do gabinete do ministro, ocorreu logo depois.
No dia 14 de maio, a Partners depositou mais R$ 10 mil na conta de Anne. Num
e-mail preenchido com “suprimento” no campo do assunto, uma funcionária da
Partners avisa a Anne que o dinheiro foi transferido. Anexa o comprovante da
transferência. Nesse caso, Anne diz que sacou o dinheiro, como das outras
vezes. Afirma que, sempre por orientação do diretor Vivaldo, entregou o
dinheiro a Alencar – segundo ela, ele foi à sede da Partners receber seu
envelope.
TESTEMUNHA
A ex-secretária Anne Paiva disse que
“serviu de laranja” da Partners para pagar
propina aos dois assessores de Mantega
O último pagamento de
propina, narra Anne, aconteceu no começo de julho. No dia 2, o Ministério da
Fazenda depositou R$ 237 mil na conta da Partners no Banco do Brasil, em
pagamento aos serviços prestados – e aos não prestados também – no mês
anterior. Dois dias depois, o diretor Vivaldo escreveu a Anne no Skype: “Sacar
amanhã cedo os 15 mil que entrarão na sua conta hoje e entregar para o Humberto
(Alencar) no MF (Ministério da Fazenda), por favor”. Anne diz que sacou o
dinheiro, mas que, como da vez anterior, Alencar buscou o envelope na sede da
Partners. “Depois dessa vez, disse ao Vivaldo que não adiantava mais depositar
dinheiro na minha conta”, disse Anne. “Eu não faria mais nenhum pagamento.” No
dia 25 de julho, quatro meses antes de o contrato vencer, o Ministério da
Fazenda enviou ofício à Partners perguntando se a empresa estava interessada em
renová-lo por mais um ano. A Partners respondeu que estava.
Procurados por ÉPOCA,
Alencar e Fiche negaram ter recebido propina. Ambos negaram até já ter visto a
secretária Anne, embora ela frequentasse as dependências da Fazenda e apareça
em fotos no Facebook em frente ao gabinete do ministro Mantega, ao lado de uma
dezena de funcionários, na festinha que lhe fizeram em sua despedida da
Partners. “Dinheiro? Acho que você está falando com a pessoa errada. Cuido da
parte administrativa do gabinete”, disse Alencar, antes de desligar o telefone.
“Ela (Anne) nunca esteve no ministério. Nunca recebi dinheiro nenhum. Estou
preparado para processar quem sujar meu nome”, disse Fiche. “O Humberto é o
fiscal do contrato. Não boto a mão no fogo por ninguém.”
O diretor financeiro da
Partners, Vivaldo, negou o pagamento de propina. “Desconheço isso aí no
momento”, afirmou. “Isso aí são outras despesas. Com certeza. Entendeu? Isso é
desembolso de caixa para outras despesas da empresa em relação ao cliente. Isso
aí, com certeza, é em relação a alguns objetos, alguns reembolsos do cliente.
Existe a prestação de serviço com o cliente, e o reembolso de algumas despesas
que são feitas com o cliente, despesas de viagem, deslocamentos. Isso é com
certeza algum reembolso que foi feito.” Vivaldo disse não se recordar das
conversas por Skype com Anne.
O empresário Dino Sávio,
sócio e diretor executivo da Partners, confirmou que a conta da secretária Anne
foi usada para transferência de dinheiro para Brasília, mas negou que o destino
dos valores fossem servidores do ministério. “Era dinheiro para despesas
administrativas com a execução do contrato em Brasília”, disse, sem especificar
que despesas eram essas. Sávio negou o pagamento de propina a servidores da
Fazenda. “Não há motivo para isso”, afirmou. Sávio disse que a empresa “cometeu
um erro” ao enviar ao ministério contracheques de funcionários que prestam
serviços para a Cemig e para a CVM no Rio.
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