domingo, 16 de outubro de 2011

CURA E MEDICALIZAÇÃO DA MENTE

A cura é o que todo doente espera receber do médico, mas nem sempre consegue. Para o paciente, a cura é o mínimo que a medicina lhe deve, enquanto os médicos sabem que o máximo que podem oferecer é o mais testado até o momento. No entanto, um médico que não cura ninguém não deixará de ser médico, pois possui um diploma reconhecido socialmente que lhe garante esse título. Já um curandeiro tem todas as suas esperanças em seus resultados, pois não será avaliado a partir de seus conhecimentos, mas sim a partir de seus sucessos.
Com o avanço da medicina, a duração da vida humana tem aumentado exponencialmente. Segundo o filósofo e médico francês Georges Canguilhem, o aumento da duração média da vida permitiu a manifestação de novas doenças e o aumento da ocorrência de antigas. A velha ambição da medicina de cura e prolongamento da vida surtiu como efeito colocar o ser humano diante de novos dilemas.
O homem não deve temer o seu fim, pois o medo é a arma usada para a imposição da “ditadura da saúde”. A vida humana é uma existência, e o simples fato de vivermos nos fazem abertos a possíveis doenças, não por sinas ou condenações, mas pelo simples fato de estarmos presentes no mundo.
Ainda assim, que se tenha enfrentado uma doença e após isso se recuperado, a saúde depois da cura não é a mesma de anteriormente. A cura nunca é um retorno ao estado anterior.
É preocupante o uso indiscriminado das drogas psicoativas, pois elas perturbam os neurotransmissores, mesmo que eles não sejam a causa primeira da doença. Os mecanismos compensatórios do organismo fazem com que o abandono dos remédios seja mais difícil ainda, e os sintomas produzidos pela retirada dos medicamentos chegam a serem confundidos com recaídas da doença original, o que pode levar ao retorno do tratamento com remédios, talvez em doses mais elevadas.
O modelo biológico de doença mental é muito simplista e por vezes esconde problemas maiores. Que criança não é ocasionalmente irritante? Que menino do ensino fundamental não é as vezes desatento? E por que uma menina no ensino médio não pode ser ansiosa? Rotular como tendo transtorno mental e tratá-las com medicamentos é uma atitude muito radical. Medicaliza-se até o existir.
A depressão esconde mágoas profundas do ser humano. A ansiedade esconde medos diante da vida. Anestesiar o indivíduo não resolve o problema, só o impede de enfrentar as suas questões, fazendo crescer a dimensão do problema.
Precisamos parar de pensar que drogas são a melhor solução ou que sejam o único tratamento para as ditas “doenças mentais”. Tanto a psicoterapia como exercícios físicos têm se mostrado tão eficazes quanto, e seus efeitos são mais duradouros. Mas o problema é que não existe uma indústria que promova essas alternativas.
O saber científico e suas técnicas surgem comprometidos com o interesse de alguns grupos em manter determinada ordem social.
Mas não devemos lutar pela abolição do uso de remédios. Eles possuem uma eficácia que é necessária ao homem uma vez que nos estão disponíveis. Há casos em que o uso de medicamentos são completamente necessários, que até para fazermos um tratamento mais profundo precisamos oferecer um paliativo. No entanto, esses casos são menos incidentes do que acreditamos.
É necessário combater o vício nos mesmos e a crença de que a cura é um processo instantâneo de ingestão de pílulas.
A experiência clínica mostra que a cura é um processo de superação de barreiras impostas por si mesmo, representando a vivência do mito individual.
E não é fugindo de si mesmo, se escondendo em paliativos, que podemos enfrentar nossos monstros internos para alcançar a regeneração.
Referências

Admirável Mundo Novo. Aldous Huxley
Escritos sobre a medicina. Georges Canguilhem

 

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